Arquivo mensal: julho 2014

A FESTA ROLEZINHO

Por Regiz Munhos

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Já tem um tempo que quero escrever sobre Rolezinho, agora sob pressão de algumas pessoas tomo vergonha na cara e escrevo.

Os rolezinhos, reuniões de muitos jovens em Shopping Centers com intuito de sociabilizar além de festejar e divertir são agora assunto ultrapassado. Para o olhar do historiador muito pelo contrário, se tratam de fenômenos sociais e culturais de grande importância a serem estudados com seriedade.
O grande fato é que tal fenômeno foi tido por muitos conservadores como uma “aberração da vagabundagem” de adolescentes da periferia ou como exemplo de “Baderna” e “Vandalismo” atente-se leitor, aos dois últimos adjetivos, pois estes são muito interessantes. Da mesma forma o Rolezinho foi visto pelos progressistas, socialistas e muita gente da esquerda como um ato totalmente subversivo, politizado ou um grito contra o sistema opressor que exclui os jovens da periferia e estes, agora altamente politizados e munidos de uma vontade explosiva de desejo de mudança, resolvem tomar os shoppings da burguesia capitalista. Certo de que ambas as visões estão munidas de uma grande cegueira ideológica, venho por meio desta tentar mostrar o que talvez seja só mais uma visão tão cega quanto as outras.O grande trunfo dos conservadores é facilidade imensa de emplacarem termos altamente anacrônicos no imaginário social. O termo Baderna é um desses. Este que vos escreve, certo dia foi alertado por um amigo próximo sobre uma senhorita de origem italiana chamada Marietta Maria Baderna[1]. Baderna nascida na Itália efervescente no período da unificação fazia parte de uma CIA de dança italiana que durante a ocupação da Áustria viajou o mundo dançando e protestando contra a invasão. Em meados do século XIX essa CIA desembarca no Rio de Janeiro para apresentações. Ousada, Marietta de glúteos apetecíveis incrementa seu espetáculo com danças afro brasileiras, enlouquecendo seus seguidores que viriam a serem os “Badernas”. Badernista hoje é uma construção histórica social usada com muito entusiasmo pelos militares durante os anos de chumbo e que perdura até os dias de hoje. Outro exemplo anacrônico é chamar a turma de “Vândalos”. O termo é se não, um comportamento conferido aos Vândalos, grupo étnico que ocupou parte do Império Romano no norte da África, que significava destruição das coisas belas e vulneráveis. O nome vândalo vem do tronco linguístico Germânico que significa vagar, algo muito próximo do que os conservadores costumam chamar muita gente que quebra banco ou nossos “Rolezeiros”. Ou seja, outra anacronia. Os conservadores ainda dizem que o que a turma do rolezinho queria mesmo eram os tênis das grandes marcas. Sábios dispensáveis.
A esquerda algumas vezes tem o penoso costume de tratar qualquer espécie de manifestação de cunho social como um grito dos excluídos contra a opressão capitalista. Quanto ao que dizem os conservadores, a devida atenção já foi dada. A visão da esquerda é a que mais interessa. O Rolezinho surge para a esquerda como uma forma dos jovens lutarem contra a segregação imposta pelo capitalismo neoliberal. Seria no mínimo estranho achar que os jovens de um bairro como o de Itaquera estariam, mesmo que subjetivamente, se manifestando contra essa opressão num bairro de periferia como Itaquera que por si só já é segregado. Não discordo totalmente dessa visão, mas ela é incompleta e deixa lacunas que passam a serem preenchidas por ruídos e ruído é som de pouca intensidade e confuso. Talvez as idéias de um já falecido historiador inglês, possa nos ajudar a preencher um pouco mais essas lacunas com som compreensível. Edward Palmer Thompson discordava vigorosamente de qualquer visão estruturalista que acaba por excluir as pessoas, as “gentes”, dos processos históricos. Para Thompson tradição, cultura e costumes populares são essenciais para dar cabo do entendimento dos acontecimentos históricos. Pensar o fenômeno “Rolezinho” com uma abordagem thompsoniana pode ajudar a compreendê-lo. O “Rolezinho” não é um fenômeno político, mas muito menos é um fenômeno apolítico, tem raízes profundas crivadas nas contradições sociais sim, mas tem raízes também explicadas por questões de ordem moral, cultural e tradicional. Da privatização dos espaços públicos surgem os shoppings centers. Centros privados de consumo que não são espaços públicos de convívio. Vivemos em são Paulo mais de vinte anos da pura privatização de tudo que venha a ser espaço público. O consumo se encontra não em um lugar sociável e em comum, mas sim em um espaço com um dono que tem um preço e gera um lucro. A organização da cidade é pensada de forma que a periferia torne-se uma região dormitório e não uma região social de utilidade plena. As pessoas que vivem nesses espaços vivem nesses e os usufruem, sejam privados ou não. A década de oitenta, período marcado pela carestia, foi um exemplo do conflito entre público e privado nos campos moral/cultural e não só no econômico.

Motivados culturalmente pela moral cristã, que opunha as leis do mercado às necessidades das pessoas, muitos moradores dos bairros de subúrbio, organizados em suas paróquias por vários padres, passaram a saquear mercados para garantir, em tempos de super inflação, sua alimentação básica. Essas pessoas usufruíram esses espaços privados e do mercado quando os saquearam. O liberalismo noventista derruba a super inflação, mata os espaços públicos, aprofunda a segregação social urbana e intensifica a pobreza, o mercado se torna ainda mais preponderante. Pensar o rolezinho é opor o mercado com sua maldita mão à tradição e costumes populares. É crucial entender que aqueles que participaram dos rolezinhos fazem parte de uma classe social, a classe trabalhadora, e o que identifica essa classe, bem como outras classes, é o que há em comum entra cada sujeito pertencente a ela e seus interesses.Ora, desde os primórdios da história as pessoas se encontram em espaços públicos ou não para celebrarem seja lá o que for e a festa é uma celebração. Diversão é uma marca da festa que implica em encontros sociais que geram sociabilidades duráveis ou menos duráveis, nos dias de hoje uma “ficada”. Festas além de interação estão sempre embotadas de alegria dos festeiros e sempre regadas à música. Festa é uma tradição social e histórica. A fala dos Rolezeiros está carregada de festividade e celebração:

“A ideia inicial foi reunir os jovens para se encontrar no shopping e fazer as coisas normais que os outros fazem: tomar sorvete, conhecer pessoas novas” afirmou ele. “A intenção foi mesmo fazer um meio de lazer, que a gente não tem em Guarulhos nem em São Paulo. No fim de semana, jogo bola, empino pipa com a criançada e internet. A única coisa que a gente tem é isso. O único lugar de lazer é o Bosque Maia, que não tem atrativo para jovem.” [2]

O trecho faz parte de uma entrevista com um dos jovens organizadores dos Rolezinhos. Assim como essa fala existem outras dezenas e em varias entrevistas que qualquer site de busca pode listar em alguns cliques. O Rolezinho é uma apropriação de um local que antes privado torna-se então público. Mas essa apropriação como já defendida antes, não é totalmente política por não ser apenas um grito da juventude excluída já que essa hipótese não da conta de explicar profundamente os fatos. Ora, é uma juventude que vem de um contexto histórico governamental a nível federal muito diferente e é uma juventude consumista e despolitizada que vê no Funk Ostentação seu ideal de vida. Não é apolítica por demonstrar que sim, o conflito de classes existe, e se reflete na apropriação do espaço privado impelido por interesses festivos de diversão em comuns que não são levados em consideração pelo liberalismo, é o conflito entre a tradição e o mercado. Há que se levar em conta os traços culturais dessas apropriações. Vivemos em uma sociedade de consumo onde cada um é um simulacro de um estilo de vida completamente irreal e irresponsável. Os jovens das várias classes sociais estão dentro dessa sociedade, todos querem consumir as belezas oferecidas pelo admirável mundo do consumo. A festa rolezinho tinha em seu fundo musical, o polêmico Funk Ostentação (vale lembrar que a idéia aqui não é polemizar sobre a música e sim analisá-la), retrato desse simulacro do mundo consumista. Não cabe a texto abordar a qualidade da música e sim ressaltar o contexto que ela acontece e o que ela reflete. Ela é legítima por ser ouvida por pessoas que agem por vários estímulos inclusive por um contexto na qual a ela se insere. A música é mais um dado cultural a ser observado por ser parte do contexto festivo e por representar um movimento e uma forma de agir e pensar social. Portanto é importante, para aqueles que gostam de análises profundas, fugirem do pensamento estruturalista, unilateral e raso. Os Rolezinhos são mais do que a demonstração da estrutura maligna do capitalismo liberal, a história é feita por pessoas que agem em comum em seus contextos sociais. Eles são retratos de como uma classe pode agir em relação àquilo que ele mesma forma.

Esses jovens constituíram um formato de sociabilidade festiva estimulada pelos seus interesses em comum, que também está impregnada pelo consumismo e dessa forma se apropriaram não de uma forma política em nem apolítica, de um espaço do mercado que não os pertencia. O rolezinho é uma festa e qualquer festa está sujeita a incontáveis tipos acontecimentos, pessoas morrem em festas da mesma forma que filhos são gerados nelas. A festa rolezinho tem caráter social que torna público o privado e não reivindica nada se não diversão.

[1] Para quem se interessar pela história de Marietta: CORVISIERI, Silverio. Maria Baderna a bailarina de dois mundos. Ed Record. 2001. São Paulo.
[2] http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/intencao-foi-so-fazer-lazer-diz-organizador-do-primeiro-grande-rolezinho/

Regiz Munhoz é coordenador de Juventude Sindical da JPT Sampa

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