Uma juventude que pensa o país – Por Amanda Lemes e Fernando Pacheco

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No dia 13 de junho, as ruas do Brasil explodiram com manifestações massivas, prenhes, em sua maioria, de garotos e garotas. O que eles traziam nas mochilas além de vinagre? Pautas – dispersas e inclusive contraditórias entre si, é verdade – sobre os rumos do desenvolvimento do Brasil. 

Traziam os grandes temas do país, seja sob viés mais progressista ou conservador, para o centro da esfera pública. Em síntese, clamaram por mais serviços públicos (com qualidade), combate à corrupção e soluções estruturantes para os problemas urbanos. Ao chegarem a suas casas para assistir à repercussão dos seus protestos, encontravam uma narrativa midiática dizendo que lutavam contra o custo de vida, contra a inflação. Utilitarismo diante dos fatos? Sim, mas que disputava as vozes das marchas, da mesma forma, em torno dos assuntos latentes do Brasil.

Para este artigo, importa pouco a narrativa da velha imprensa comercial ou se os filhos da classe média tradicional estavam ou não acompanhados de extratos da nova classe trabalhadora. Se preparados, poderíamos ter disputado os jovens da antiga classe média, que já ofereceu quadros valorosos para a esquerda. Se preparados, poderíamos ter disputado os jovens, cuja nova realidade, foi criada pelos 10 anos de governos Lula e Dilma.

E como estarmos mais preparados? Discutindo os temas que esta meninada provou estar interessada e alerta. De novo, os grandes temas do desenvolvimento.

Não buscamos aprofundar a análise aqui do ponto de vista sociológico ou político das manifestações, mas sim registrar que estávamos – os autores deste texto e outrem –  modestamente corretos ao afirmar, em pelo menos duas oportunidades publicadas, o rumo pelo qual o partido poderia enveredar ao formular a linha estrututrante de formação e atuação desta sua terceira geração.

No artigo “Sobre empoderamento e transição geracional” (i), afirmamos que:

1) “Grosso modo, precisamos, no plano estratégico de ação juvenil, menos de ‘políticas públicas de juventude’ e mais de ‘juventude pensando políticas públicas’”;

2) “Não queremos só um dirigente juvenil, mas um jovem dirigente”;

3) “Precisamos, de um lado, mobilizar a sociedade brasileira em torno de idéias e propostas dos jovens para o país e, de outro, mobilizar os jovens pelo desenvolvimento”.

Três assertivas, ao nosso, ver, mais atuais do que nunca e estratégicas neste instante em que o PT se prepara para o PED.

No artigo “Balanço eleitoral e atualização do projeto nacional” (ii), alertamos:

“Prestemos atenção no fato de que as classes sociais em ascensão (D e C) são formadas majoritariamente por pessoas entre 15 e 29 anos, por jovens-ponte (como descobriu a pesquisa ‘Sonho Brasileiro’), que, com mais escolaridade e trabalhando com melhores salários, formam a opinião de seus lares. E eles querem segurança, saúde, educação, querem ser parte da solução estrutural destas questões e são eles que podem ser ganhos para uma nova cultura (e opção duradoura) política nacional. Porém, só o serão, se com eles for debatido o Brasil, seu estado, sua cidade, seu bairro e se enxergarem fator etário com capacidade de representação política e social, já que estamos falando do PT para a ‘nova classe trabalhadora’”.

Dispensa comentários.

Neste mesmo texto, apresentamos a enorme potencialidade nas mãos do partido para promover, autenticamente, sua virada geracional interna e externa:

“A nova geração petista foi amplamente vitoriosa. Segundo balanço feito pelo Grupo de Assessoramento Eleitoral (GAE) do Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE), ligado à Executiva Nacional, o partido elegeu 16 prefeitos entre 24 e 29 anos, 133 de 29 a 40 anos, e 277 entre 40 e 50 anos (a idade de Haddad), totalizando 410 novos gestores que englobam a segunda e terceira gerações petistas de um montante de 628 eleitos só no primeiro turno”.

E, por fim, apontamos dois desafios que dialogam, novamente, em nossa opinião, com a atualidade emanada das ruas:

“Temos, também, diante de nós, o desafio de aproveitar os novos mandatos municipais para atualizar o programa do PT para a gestão do Estado, a partir de inúmeras inovações empreendidas no Governo Federal, como o Bolsa-Família, o Brasil Sem Miséria, o PAC, entre outros, valorizando a experiência de uma enorme quantidade de servidores públicos concursados, petistas e, em sua maioria, ‘jovens’”.

E…

“Programaticamente, a chave está na demarcação do nosso campo como o campo da política social e, por conseguinte, a construção de uma narrativa que preveja o desenvolvimento do nosso ‘sistema de direitos’ e maior conexão entre participação social e o planejamento do desenvolvimento; e ter o ciclo virtuoso do crescimento financiando, indubitavelmente, um Estado de Bem Estar Social ‘tropical’”.

É-nos interessante registrar, de relance que, antes dos eventos, o coordenador de relações institucionais executiva nacional da Juventude do PT, ao apresentar propostas organizativas para esta a serem encaminhadas no próximo período, antes dos protestos, em artigo intitulado “Precisamos de muita política e muitas propostas” (v), de 26 de abril de 2013!, recomendava:

“Pactuar metas para organização de núcleos do PT liderados e compostos em sua fundação por jovens com lógica territorial (bairro, distrito, rua) em municípios acima de 500 mil habitantes”, “Realizar a formação nacional de jovens prefeitos e gestores do PT e todos os níveis federativos”, “Cronograma planejado de atividades culturais (festas e filmes) e políticas (debates) nas sedes do PT estaduais e das capitais abertas às comunidades”, “Planejar uma caravana das juventudes de esquerda nas Universidades (tipo a da UNE), para pautar o balanço da década nas IES federais”; e “Desdobrar a Jornada de Lutas em mobilização pela coleta de 1,5 milhão de assinaturas pela reforma política”.

Não que fosse uma profecia, mas cada proposta dessa, se antecipada, nos deixaria mais bem aquartelados para o front que emergiu no dia de Santo Antônio.

A primeira levaria os jovens a buscarem, nas principais cidades, organizar territorialmente um diálogo com nossa nova base social; a segunda, ajudaria a alinhar um mote de ação comum entre a nova geração de gestores para discutir os problemas urbanos; a terceira, estimularia a interação orgânica entre jovens petistas filiados dirigentes, de base e simpatizantes, cuja relação, hoje, é distante, hierárquica e chata; a quarta, nos daria a chance de começar a criar coesão, com debate e mobilização, num espaço hiper-estratégico que é o movimento estudantil (as ruas não mentem, perdoem-nos!) a nova leva de estudantes cotistas, fiesistas e prounistas, sem falar no debate aberto com os rebentos da velha classe média e a intelectualidade acadêmica; a quinta, prepararia as condições para dar ainda mais substância ao que tentamos fazer hoje a partir da iniciativa da presidenta Dilma e a imediata reação conservadora do Congresso Nacional em torno do plebiscito. Todas estas propostas estiveram na mesa.

Ao ler a nova convocatória da Jornada de Lutas de Juventude (iii), cujos trechos destacamos abaixo, estamos convictos de que a realidade se impôs sobre a fantasia. Alvíssaras!

Cabe agora, de forma consciente, oficial e planejada estruturar, sem mais rodeios, o desenvolvimento e os grandes temas do projeto nacional em curso como os grandes temas da atual geração.

Seguem os trechos supracitados, onde não restam vestígios de agenda setorialista-juventudista (lembrando que aplaudimos o acontecimento porque estamos a discutir o estruturante tático e estratégico numa conjuntura-chave, de um aparente novo ciclo de lutas democráticas capitaneado pela quinta geração de jovens que se insurge por direitos no país)

“Iremos às ruas (e a todos os lugares) por:

1.  Transporte público de qualidade!

2.  Reforma política com realização de plebiscito popular!

3.  Reforma urbana!

4.  Redução da jornada de trabalho para 40 horas!

5.  Democratização dos meios de comunicação!

6.  10% do PIB para a educação pública!

7.  Saúde pública de qualidade e universal!

8.  Pelo fim das terceirizações: contra a PEC 4330!

9.  Contra os leilões do petróleo!

10.  Pela Reforma Agrária!

11.  Pelo fim do fator previdenciário!”

Em fevereiro deste ano, no chamado à Plenária Nacional de Lutas da Juventude (iv), a conversa era outra, setorial…:

“Movimentos ligados à pauta da educação, cultura, mulheres, combate ao racismo, esporte, transporte, como UNE, CUT, MST, Levante Popular da Juventude, Casa Fora do Eixo, estarão presentes na plenária nacional, que discutirá políticas e lutas para avançar em direitos para juventude”.

(Ante este comparativo, supusemos uma hipotética pergunta: mas se as respostas têm que ser, agora, para a juventude, não teria que ser setorial mesmo? Bom, como esta pergunta é apenas imaginação, nos reservamos à esta polêmica quando ela for posta à mesa).

Ao que já dissemos no pretérito recente, apontamos mais algumas diretrizes que consideramos iminente e cujas condições de implementação, repetimos, como linha estruturante de uma “linha de massas” (lembram?) para o trabalho junto à juventude:

• Reafirmar a tarefa de seguir atacando o aspecto fundamental da contradição atual do desenvolvimento do país, o neoliberalismo, o aspecto principal da contradição, seu representante político, o PSDB, que demanda um engajamento na organização de manifestações anti-neoliberais, sob pena de se acreditar que o obstáculo para aprofundar as transformações encontra-se em nosso próprio governo federal. Ainda há muito neoliberalismo e Consenso de Washington a ser varrido dos em governos estaduais e municipais, da imprensa corporativa e do Poder Judiciário,

• Atuar para a organização de nossa nova base social, que são os beneficiados pelos programas sociais federais e pelas grandes transformações e políticas públicas implementadas no Brasil.

• Elaborar uma mensagem clara para a juventude, que a encoraje a defender, conscientemente, as transformações vividas pelo país, os motivos destas transformações e os meios que as possibilitaram. Mas, aí, temos que fazer o balanço da década real, falando de jovens tangenciados pelo PAC, MCMV, mobilidade social, Bolsa-Família, expansão de IFES e Ifets, 19 milhões de empregos, etc.

• Formar a nova geração conhecendo de onde viemos para chegar até aqui: da anti-oligárquica Revolução de 30, passando pelas tentativas de afirmação da soberania nacional e das reformas de base do trabalhismo democrático entre as décadas de 50 e 60, pela resistência à ditadura, pela conquista da redemocratização, o combate constituinte por direitos, até a narrativa do balanço da década de governos do PT (e não deixá-la crer que “tudo começou” quando um intelectual bradou: “os jovens são sujeitos de direitos!”).

• Transformar-se na forma de fazer interagir e fazer política, sobretudo qualificando e ampliando a presença do debate político democrático nas plataformas digitais de comunicação.
Amanda Lemes é membro da direção nacional da Juventude do Partido dos Trabalhadores

Fernando Pacheco é economista e coordenador de relações internacionais da Juventude do Partido dos Trabalhadores

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